Nem todo luto tem velório. Nem todo filho chegou a nascer
- Marlene Souza
- 17 de mai.
- 3 min de leitura
Atualizado: 18 de mai.
Psicóloga Márlene Rosa de Souza
Quando essa dor não encontra espaço, ela não desaparece, ela fica.
Na clínica, esse luto pode ser escutado - sem pressa, sem julgamentos, sem minimizar o que foi perdido.

PERDA GESTACIONAL COMO UM LUTO IMPORTANTE
A perda gestacional é um acontecimento potencialmente traumático. Enfrentá-la e ultrapassá-la é uma tarefa que coloca em causa o equilíbrio psicossomático dos casais, em especial da mulher. As particularidades desde tipo de luto são discutidas a partir da literatura científica no âmbito da psicologia clínica e aplicada.
Parte-se do entendimento de que um óbito fetal encerra uma experiência (a gestação), marcada por mudanças físicas, sociais e psicológicas para a mulher; Além disso a interação com o bebe, baseada essencialmente na atribuição de significados por parte da mãe para com os movimentos físicos do filho, também é interrompida. Essa interação entre mãe e bebe já contribui para o desenvolvimento do comportamento do apego da mãe. Freire e Chatelard (2009) acrescentam que em uma perda fetal a gestante vivencia um luto verdadeiro, mas também uma perda objetal e, inclusive uma dor narcísica porque se trata de uma parte de si mesma, de um amor idealizado, de uma esperança e da possibilidade de eternizar-se.
A partir disso, ocorre um processo de luto específico, associado à perda de um projeto de vida, que em geral, tende a ser subestimado em nível cultural e social.
A perda gestacional ou neonatal é um dos lutos mais complexos e de menor validação social. Estamos falando que em um momento de vida há morte. A efemeridade da vida fica escancarada. A proximidade da morte em qualquer momento do ciclo vital expõe a fragilidade do ser humano. E com toda essa contradição e sentimentos confusos temos inúmeros pais sendo negligenciados em suas dores.
Dizer aos pais que acabam de perder seu filho em algum momento da gestação ou pós-nascimento que “logo terão outro filho”, “foi melhor assim”, “vocês nem vão sentir tanto já que quase não conviveram” ou “foi vontade de Deus” não é saudável. Impede que o luto seja legitimado e vivenciado plenamente.
Essas afirmações e tantas outras coisas só menosprezam e invalidam todo o investimento emocional. Invalidam as expectativas e os desejos que permeavam a chegada desse filho. Sonhos que muitas vezes são construídos antes mesmo da concepção. Elas fazem com que esse luto seja vivido no isolamento, sem expressão, podendo gerar complicadores e até mesmo um processo de luto complicado.
Sentimentos de fracasso e culpa são comuns. E a dificuldade de validar essa nova identidade socialmente – pais de um filho morto, pode ser grande, o que dificulta a expressão dessa dor. O homem, muitas vezes, se coloca como coadjuvante. Abafa sua dor com a intenção de não aumentar o sofrimento da esposa. No entanto, ele também fez investimentos emocionais, construindo sonhos e planos para a vivência com esse filho.
Conforme a literatura há muitas variantes que servem de fatores de risco para a vivência de um luto psicopatológico na perda gestacional, entre os fatores estão::
Vivência anterior de perda fetal.
Ambivalência inicial diante da descoberta da gestação.
Depressão e ansiedade (já instalados em consequência da perda gestacional anterior ou outros fatores).
A ocorrência da perda em fase avançada da gestação (perda gestacional tardia). Nessa fase está envolvido também a perda do vínculo já estabelecido com o bebê, que já se movimenta no útero.
A não ocorrência de sepultamento do feto, portanto, sem o ritual do funeral, importantíssimo dentro da nossa cultura para elaboração de um luto, onde todos se encontram para chorar, consolar-se e legitimar a perda. Dentro da impossibilidade do enterro tal luto passa a ser solitário, sem expressão e todos fingem que nada aconteceu. De fato, ainda existe dentro de nossa sociedade um grande tabu sobre o luto de perdas gestacionais.
E finalmente, o fator mais importante de todos que favoreceu um luto patológico: A interrupção da gravidez por razões terapêuticas, o que por si só já causa a sensação de culpa extrema, agravando ainda mais o quadro depressivo que muitas vezes já se instalou.

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